sexta-feira, 5 de julho de 2024

Leitura e capacidade crítica

Um dos campos que mais estou estudando atualmente, tanto por interesse próprio quanto por demanda crescente do consultório, é a questão do uso abusivo de telas. No meu perfil do instagram tenho feito diversos vídeos e (re)postagens sobre o assunto. Também tenho falado sobre o assunto em meu recém inaugurado canal de youtube e em meu podcast. Sim, utilizo as redes sociais e as telas para tentar conscientizar algumas pessoas.

Dentro dessa temática - uso abusivo de telas - há outra intimamente ligada: o decréscimo cada vez maior da leitura por parte dos jovens e adultos. Para se ter ideia, somos o sexto pior país no ranking de habilidade de leitura. Vejamos alguns pontos que tenho achado bastante interessantes e preocupantes, citados por diferentes autores de livros e artigos:

Reducionismo e imediatismo: desde uma postagem que antigamente continha até 70 caracteres no twiter e hoje conta com a 'assombrosa' quantidade de 140 caracteres por post no X; um limite de 2200 caracteres (mais ou menos de 250 a 350 palavras) no instagram; ou mesmo um limite de tempo dos vídeos; isso tem uma razão de ser: a necessidade de ser algo rápido. Poucas pessoas se detém a ler um texto longo - é cansativo, dizem. Além disso, há o imediatismo de que tudo tem que ser rápido porque podemos perder alguma outra informação (FoMO: Fear of Missing Out). Assim, não nos aprofundamos, ficamos no raso;

Capacidade de escrita e leitura: como citado acima, estamos mal no ranking mundial. Muito mal. A falta da capacidade de leitura afeta diretamente a capacidade de construir um texto correto e conciso - e vice-versa. Quanto menos se lê, menos se entende sobre algo. A falta de escrita manual, inclusive, afeta diretamente no nosso desenvolvimento neural. Com computadores e celulares usamos cada vez mais somente dois dedos para a digitação e não escrevemos mais com lápis ou caneta; é uma habilidade que afeta não só jovens em colégios públicos ou particulares, mas pessoas em graduações em universidades (eu tive essa triste experiência recentemente quando fiz minha segunda graduação, a psicologia - ler coisas como um parágrafo inteiro sem letras maiúsculas, sem pontuação, sem concordância alguma);

Capacidade crítica: ainda sobre a falta de leitura e conhecimento, hoje tendemos a acreditar em diversos absurdos difundidos por redes sociais - desde que vacinas causam autismo ou tem 'chips' de rastreamento até que a Terra é plana; não se tem uma noção mínima sobre assuntos gerais inclusive sob o pretexto de que 'tudo que eu preciso saber está no meu celular a poucos cliques'. Sim e não. Está, mas se para conseguir ter noção do que foi a Segunda Guerra Mundial você precisa pegar o celular, é porque estamos andando à passos largos para o abismo da estupidez. Essa escassez de uma cultura geral, um 'conhecimento de fundo' sobre história, biologia, matemática, física, etc., gera pessoas rasas, superficiais e imbecis.

Dizia um ex-colega holandês de trabalho no doutorado em Amsterdã que esse tipo de pessoa pertenceria ao 'the shallow part of the gene pool'... a parte rasa do 'pool' genético. De fato, parece que estamos caminhando rapidamente para essa seca e a formação de mais 'poças'.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A necessidade de postar

Recorrentemente tenho abordado esse tema na clínica. Qual a necessidade constante de postar nossa vida? Por quê nos pegamos presos a essa má...