sexta-feira, 26 de julho de 2024

A necessidade de postar

Recorrentemente tenho abordado esse tema na clínica. Qual a necessidade constante de postar nossa vida? Por quê nos pegamos presos a essa máquina de publicações, curtidas, likes, etc? Por quê os jovens, especialmente as meninas, são mais vulneráveis?

Desde que os celulares começaram a vir com câmeras frontais e as redes sociais migraram dos computadores para os dispositivos portáteis - hoje onipresentes - ficou muito mais fácil postar e seguir o que está acontecendo constantemente nas redes. Segundo o 'behaviorismo' clássico, o mecanismo de vício tem três passos: 1: gatilho (interno ou externo); 2: ação; 3: recompensa variável (isso é particularmente importante porque não sabemos quando a recompensa virá, e torna o processo todo mais viciante). O modelo de gancho ou engajamento adiciona um quarto passo aos humanos: o investimento.

Ou seja: o gatilho pode ser uma notificação; a ação é pegar o celular e conferir; a recompensa é uma curtida ou like; o investimento seria nós mesmos colocarmos uma foto ou um post. E tudo se reinicia numa escala do tamanho da rede de "amigos" que temos: se cada um posta e compartilha e somos notificados por tudo isso, imagine quantas distrações teremos todos os dias.

Para os jovens há um fator muito preocupante: uma das principais características da pré e da adolescência é o pertencimento a um grupo. Naturalmente é uma fase onde buscamos nos enquadrar e pertencer a uma "tribo": metaleiros, nerds, skatistas, emos, etc... Ali temos um grupo que nos acolhe, que nos aceita como somos, coisa que muitas vezes não acontece na própria família nuclear. As redes sociais virtuais potencializaram isso a um alcance nunca antes imaginado, nem mesmo na mais visionária distopia. E com isso vem o dreno de tempo e da vida real. Deixamos de fazer coisas com nosso eu real na vida real e passamos a fazer e viver o nosso eu virtual (e ideal inatingível) no mundo das redes.

Qual a necessidade constante de postar nossa vida? Nossos amigos e os outros pertencentes ao mesmo grupo estão fazendo, então eu tenho que fazer. Eu também preciso de validação externa porque o meu 'eu' já não é o suficiente. Eu já não me basto, preciso que os outros me digam que sou lindo(a), em forma, inteligente, importante, etc.

Por quê nos pegamos presos a essa máquina de publicações, curtidas, likes, etc? Porque fomos aprisionados em um mecanismo de vício - exatamente o mesmo de drogas, sexo, pornografia, etc -, o da dopamina. Uma vez ali, precisamos de cada vez mais. E o pior: a 'droga' está dentro da nossa cabeça. É só mais aquele post, mais aquela curtida e a antecipação do prazer já nos remete a querer mais e mais. O circuito de recompensa está ativo e inundado.

Por quê os jovens, especialmente as meninas, são mais vulneráveis? Porque a sua psique ainda está em formação e eles não sabem lidar com frustrações em escalas estratosféricas (Será que os adultos sabem?). Um não de uma paquera antes era frustrante? Sim, sem dúvida. Mas era algo pessoal, restrito a poucas pessoas. Hoje isso é anunciado ao mundo. A comparação com um padrão inatingível de beleza é muito maior e mais cruel, novamente com comentários depreciativos por parte de outros. A exposição excessiva deixa isso tudo mais possível e, novamente, parece que temos uma falta de noção do que postar, com que roupa (ou falta dela), onde, fazendo o que...

A necessidade de postar continuamente sobre tudo é, para muitos psicólogos, uma busca constante de validação do nosso 'eu', da nossa imagem. Precisamos nos voltar para nosso interior e tentar entender que precisamos ser suficientes por e para nós. Sim, é bom receber elogios e ser desejado(a). Mas quando tornamos isso a principal regra e mote de nossas vidas, esquecemos quem somos, perdemos nossa essência. Passamos a viver de 'selfies' para os outros, e isso é doentio e adoecedor.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Leitura e capacidade crítica

Um dos campos que mais estou estudando atualmente, tanto por interesse próprio quanto por demanda crescente do consultório, é a questão do uso abusivo de telas. No meu perfil do instagram tenho feito diversos vídeos e (re)postagens sobre o assunto. Também tenho falado sobre o assunto em meu recém inaugurado canal de youtube e em meu podcast. Sim, utilizo as redes sociais e as telas para tentar conscientizar algumas pessoas.

Dentro dessa temática - uso abusivo de telas - há outra intimamente ligada: o decréscimo cada vez maior da leitura por parte dos jovens e adultos. Para se ter ideia, somos o sexto pior país no ranking de habilidade de leitura. Vejamos alguns pontos que tenho achado bastante interessantes e preocupantes, citados por diferentes autores de livros e artigos:

Reducionismo e imediatismo: desde uma postagem que antigamente continha até 70 caracteres no twiter e hoje conta com a 'assombrosa' quantidade de 140 caracteres por post no X; um limite de 2200 caracteres (mais ou menos de 250 a 350 palavras) no instagram; ou mesmo um limite de tempo dos vídeos; isso tem uma razão de ser: a necessidade de ser algo rápido. Poucas pessoas se detém a ler um texto longo - é cansativo, dizem. Além disso, há o imediatismo de que tudo tem que ser rápido porque podemos perder alguma outra informação (FoMO: Fear of Missing Out). Assim, não nos aprofundamos, ficamos no raso;

Capacidade de escrita e leitura: como citado acima, estamos mal no ranking mundial. Muito mal. A falta da capacidade de leitura afeta diretamente a capacidade de construir um texto correto e conciso - e vice-versa. Quanto menos se lê, menos se entende sobre algo. A falta de escrita manual, inclusive, afeta diretamente no nosso desenvolvimento neural. Com computadores e celulares usamos cada vez mais somente dois dedos para a digitação e não escrevemos mais com lápis ou caneta; é uma habilidade que afeta não só jovens em colégios públicos ou particulares, mas pessoas em graduações em universidades (eu tive essa triste experiência recentemente quando fiz minha segunda graduação, a psicologia - ler coisas como um parágrafo inteiro sem letras maiúsculas, sem pontuação, sem concordância alguma);

Capacidade crítica: ainda sobre a falta de leitura e conhecimento, hoje tendemos a acreditar em diversos absurdos difundidos por redes sociais - desde que vacinas causam autismo ou tem 'chips' de rastreamento até que a Terra é plana; não se tem uma noção mínima sobre assuntos gerais inclusive sob o pretexto de que 'tudo que eu preciso saber está no meu celular a poucos cliques'. Sim e não. Está, mas se para conseguir ter noção do que foi a Segunda Guerra Mundial você precisa pegar o celular, é porque estamos andando à passos largos para o abismo da estupidez. Essa escassez de uma cultura geral, um 'conhecimento de fundo' sobre história, biologia, matemática, física, etc., gera pessoas rasas, superficiais e imbecis.

Dizia um ex-colega holandês de trabalho no doutorado em Amsterdã que esse tipo de pessoa pertenceria ao 'the shallow part of the gene pool'... a parte rasa do 'pool' genético. De fato, parece que estamos caminhando rapidamente para essa seca e a formação de mais 'poças'.

A necessidade de postar

Recorrentemente tenho abordado esse tema na clínica. Qual a necessidade constante de postar nossa vida? Por quê nos pegamos presos a essa má...