Recorrentemente tenho abordado esse tema na clínica. Qual a necessidade constante de postar nossa vida? Por quê nos pegamos presos a essa máquina de publicações, curtidas, likes, etc? Por quê os jovens, especialmente as meninas, são mais vulneráveis?
Desde que os celulares começaram a vir com câmeras frontais e as redes sociais migraram dos computadores para os dispositivos portáteis - hoje onipresentes - ficou muito mais fácil postar e seguir o que está acontecendo constantemente nas redes. Segundo o 'behaviorismo' clássico, o mecanismo de vício tem três passos: 1: gatilho (interno ou externo); 2: ação; 3: recompensa variável (isso é particularmente importante porque não sabemos quando a recompensa virá, e torna o processo todo mais viciante). O modelo de gancho ou engajamento adiciona um quarto passo aos humanos: o investimento.
Ou seja: o gatilho pode ser uma notificação; a ação é pegar o celular e conferir; a recompensa é uma curtida ou like; o investimento seria nós mesmos colocarmos uma foto ou um post. E tudo se reinicia numa escala do tamanho da rede de "amigos" que temos: se cada um posta e compartilha e somos notificados por tudo isso, imagine quantas distrações teremos todos os dias.
Para os jovens há um fator muito preocupante: uma das principais características da pré e da adolescência é o pertencimento a um grupo. Naturalmente é uma fase onde buscamos nos enquadrar e pertencer a uma "tribo": metaleiros, nerds, skatistas, emos, etc... Ali temos um grupo que nos acolhe, que nos aceita como somos, coisa que muitas vezes não acontece na própria família nuclear. As redes sociais virtuais potencializaram isso a um alcance nunca antes imaginado, nem mesmo na mais visionária distopia. E com isso vem o dreno de tempo e da vida real. Deixamos de fazer coisas com nosso eu real na vida real e passamos a fazer e viver o nosso eu virtual (e ideal inatingível) no mundo das redes.
Qual a necessidade constante de postar nossa vida? Nossos amigos e os outros pertencentes ao mesmo grupo estão fazendo, então eu tenho que fazer. Eu também preciso de validação externa porque o meu 'eu' já não é o suficiente. Eu já não me basto, preciso que os outros me digam que sou lindo(a), em forma, inteligente, importante, etc.
Por quê nos pegamos presos a essa máquina de publicações, curtidas, likes, etc? Porque fomos aprisionados em um mecanismo de vício - exatamente o mesmo de drogas, sexo, pornografia, etc -, o da dopamina. Uma vez ali, precisamos de cada vez mais. E o pior: a 'droga' está dentro da nossa cabeça. É só mais aquele post, mais aquela curtida e a antecipação do prazer já nos remete a querer mais e mais. O circuito de recompensa está ativo e inundado.
Por quê os jovens, especialmente as meninas, são mais vulneráveis? Porque a sua psique ainda está em formação e eles não sabem lidar com frustrações em escalas estratosféricas (Será que os adultos sabem?). Um não de uma paquera antes era frustrante? Sim, sem dúvida. Mas era algo pessoal, restrito a poucas pessoas. Hoje isso é anunciado ao mundo. A comparação com um padrão inatingível de beleza é muito maior e mais cruel, novamente com comentários depreciativos por parte de outros. A exposição excessiva deixa isso tudo mais possível e, novamente, parece que temos uma falta de noção do que postar, com que roupa (ou falta dela), onde, fazendo o que...
A necessidade de postar continuamente sobre tudo é, para muitos psicólogos, uma busca constante de validação do nosso 'eu', da nossa imagem. Precisamos nos voltar para nosso interior e tentar entender que precisamos ser suficientes por e para nós. Sim, é bom receber elogios e ser desejado(a). Mas quando tornamos isso a principal regra e mote de nossas vidas, esquecemos quem somos, perdemos nossa essência. Passamos a viver de 'selfies' para os outros, e isso é doentio e adoecedor.